15.5.07

P.253: O culto do corpo

No trabalho, alguém do sexo feminino se queixou de ter esquecido a garrafinha do chá com que, invariavelmente, vai enganando a fome para comer menos. E alguém do sexo masculino se interrogou sobre os responsáveis deste sofrimento a que hoje tantas mulheres se sujeitam: culpa delas, culpa dos homens, culpa do marketing…? A pergunta ficou no ar e eu lembrei-me destas palavras que completam o retrato e que, embora referindo-se à sociedade norte-americana, andam muito próximo, já, da nossa realidade… Estamos a ficar assim!... (E eu não estou inocente).

«A comida (…) é o nosso prazer e a nossa punição, o nosso bem e o nosso mal. Como aconteceu com a histeria há um século, a comida converteu-se no foco de uma obsessão cultural que tem infectado um elevado número de pessoas, sem que estas fiquem gravemente doentes devido a distúrbios alimentares. O jogging fanático, a ascensão dos health club e das lojas de comida saudável, o rolfing, as massagens, as terapias vitamínicas, as lavagens ao cólon, os centros dietéticos, o bodybuilding, a cirurgia plástica, um horror moral face ao tabaco e ao açúcar, um terror dos poluentes, tudo isso remete para uma ideia do corpo como algo de extremamente vulnerável – um corpo cujas fronteiras podem desabar a qualquer momento, um corpo que vive sob uma ameaça constante. (…) Numa época que absorveu a ameaça nuclear, a guerra biológica e a SIDA, o corpo perfeito tornou-se uma armadura – dura, reluzente, impenetrável».


In Aquilo que Eu Amava, Siri Hustvedt

6 Comments:

Blogger Carlos Sampaio said...

Fui ao ginásio.
Não tenho tempo para leituras.
Prioridades....

maio 15, 2007 9:18 da tarde  
Blogger kermit said...

Engraçado, quando li esse romance da Siri Hustvedt não memorizei esta passagem. O foco da historia é se bem me lembro a perda de um filho e a proximidade entre duas familias ligadas à aerte de Nova York. Mas esta passagem pela comida é de facto muto interessante.

maio 15, 2007 10:47 da tarde  
Blogger Déjàvu said...

sem exageros...se for em excesso, claro que qualquer alimento faz mal...

quando te convidar para experimentares a minha sobremesa, deixas logo de pensar em dietas :)

maio 16, 2007 1:12 da tarde  
Blogger Emília Almeida said...

Muito interessante e actual!
Tenho feito 20m no "tapete", todos os dias!
Preciso de perder uns quilos!
Fica bem!

maio 16, 2007 1:53 da tarde  
Blogger Maria Manuel said...

Carlos
Não estás a falar de ti, nem de mim... e ainda bem! :-)

Kermit
Ando a lê-lo, por isso a passagem estava fresca na memória. A transcrição reporta-se a um estudo/publicação de uma das personagens, Violet.

Déjàvu
Não me deixes cair em tentação e livra-me desse mal...! :-)

Também tu, querida Emília...?! :-)

maio 16, 2007 2:11 da tarde  
Anonymous Gabriela Nardy said...

Olá,

Sou editora do Jornal de Debates ( www.jornaldedebates.com.br ), um jornal colaborativo na internet que periodicamente propõe debates sobre assuntos da atualidade, e essa semana um dos nossos temas será "vale tudo pela busca da beleza".
Encontrei no seu blog um post sobre o assunto ( http://char-las.blogspot.com/2007/05/p253-o-culto-do-corpo.html ), e gostaria de convidá-la a escrever um artigo para nós.

Qualquer dúvida, por favor, entre em contato.

abraços
Gabriela Nardy
Editora - jornal de Debates
gabriela@jornaldedebates.com.br

maio 16, 2007 3:28 da tarde  

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