14.12.09

Página absurda

Se eu soubesse pintar, hoje o meu quadro teria tons de dor e nele haveria uma parada de vultos definidos de ausentes e uma longa fileira de esboços presentes, perfilados aquém linha, ténue risco que se desenha, mais ou menos longe, mas sempre demasiado perto de cada pessoa expectante: a passagem.

Se eu soubesse pintar, ver-se-ia na tela a falta que fazem os que claramente transpuseram a fronteira, a dor que carrego da cegueira de os não ver, o saber como eram junto a mim e a minha ignorância inquieta sobre o seu não-ser.

Se eu soubesse pintar, a minha tela representaria risos fugazes e envolveria o conjunto na densidade de uma lágrima, como quem encorpora a massa dura de uma vida na leveza de um paliativo de textura efémera.

Se eu soubesse, haveria redutos de branco em muitos pontos do meu quadro, forma de representar almas e memórias, de outros, de mim com eles, nos mundos de cá e de lá, por onde nos vamos, cada vez mais , repartindo e derramando.


Ao Toné, no dia da sua morte.

3 Comments:

Blogger bettips said...

Absurdo não é o que pensas na página: absurda é a ausência. Definitiva, para os que não acreditam em eternidades risonhas. Absurda ... é a dor de não estar, absurdo é "nunca mais".
Viver com isso.
Habituar ao "absurdo".
Bj

dezembro 16, 2009 10:26 da tarde  
Blogger APC said...

E o quadro resultaria tão bonito como resultou. Muito bonito, mesmo!

fevereiro 11, 2010 11:33 da tarde  
Blogger Guilherme said...

Cara Maria Manuel, sobre a pergunta que me fez, não sei nada dessa nossa amiga. Deixei de receber alguns mails com que ela de vez em quando me brindava. Já mandei um mas não recebi resposta. Não sei o que se passa com ela. Um beijo amigo.

setembro 13, 2011 9:08 da tarde  

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