8.12.06

P.136: Marginando o texto


Li As Pequenas Memórias de José Saramago e, passando por cima da problemática que rodeia estas obras de cariz autobiográfico, como o saber – e raramente se sabe, mesmo quando o autor o diz… – até que ponto há ficção na reconstrução da identidade, registo alguns aspectos que achei curiosos.
O primeiro, e talvez mais surpreendente, é o da capacidade de recordar com nitidez e pormenor factos que ocorreram há mais de oitenta anos! Funcionamento bem intrigante, este da memória humana, que apaga às vezes o tão próximo e tão bem ilumina o longínquo!
Uma outra impressão curiosa que me fica desta leitura é a da identificação. De sexos diferentes, em contextos sociais, económicos, geográficos bem distanciados e com um intervalo de quarenta anos, reconheço e revivo experiências e sentimentos comuns da infância.
São, realmente, pequenas coisas, daquelas que nem lembra lembrar e que, porventura, todos vivemos de uma ou outra maneira.
Uma passagem saborosíssima, porque acordou em mim uma memória semelhante, me tornou consciente do facto e me fez sorrir, foi a da confusão na leitura e pronúncia de palavras.

Na verdade eu também tive os meus toques de dislexia, ou algo que se lhe parecia (…) Por exemplo embirrei que a palavra sacerdote deveria ler-se saquerdote (…) Uma outra que me vinha retorcida (isto são histórias da época da escola primária) era a palavra sacavenense. Além de designar um natural de Sacavém, povoação hoje engolida pelo dragão insaciável em que Lisboa se tornou, era também o nome de um clube de futebol (…) E como a pronunciava eu então? De forma absolutamente chocante que escandalizava quem me ouvia: sacanavense. Ainda recordo o meu alívio quando fui capaz, finalmente, de inverter as posições das mal-educadas sílabas.

No meu caso, as vítimas foram as palavras algures e transeuntes, que aí até aos nove ou dez anos pronunciei, convencida de que lia bem, alugueres e transuentes…! A diferença está em que não as lia em Cartilhas, nem em números do Século, mas em livros de aventuras escritos por Enid Blyton…

7 Comments:

Blogger -pirata-vermelho- said...

E se a sua escrita, vista daqui e sem balujadices, tiver mais graça que a do tipo lá da ilha,

fica muito espantada?

dezembro 08, 2006 10:22 da tarde  
Blogger Maria Manuel said...

Muito!!

... e agradecida, naturalmente!

:-)

dezembro 08, 2006 10:40 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Tenho passado silenciosamente por aqui e sempre agradado das fotos..tens sentimento para a fotografia..hoje quebrei o silêncio, para te dizer que "vive cada dia, como se em cada dia, deixasses de viver" .. hoje são 9 e não 11 :-)

intruso

dezembro 09, 2006 12:35 da manhã  
Blogger Carlos Sampaio said...

Dislexia? Consfusão na escrita de palavras??
Posso preguntar o que é? A mim, não é coisa que me aconteça assim ferquentemente!!

dezembro 09, 2006 2:22 da tarde  
Blogger Maria Manuel said...

:-))

Ok, Carlos. Não se pode ser prefeito... ou será perfeito...?!

dezembro 09, 2006 7:31 da tarde  
Blogger Carlos Sampaio said...

Boa questão...
Normalmente deixo-a para o verificador ortográfico do editor.
O pior é que segunda a teoria deste post, isto deveria passar com a idade, mas os meus "pres/pers"...!!!
Se calhar é porque ainda me falta idade!

dezembro 10, 2006 8:13 da manhã  
Blogger Maria Manuel said...

:-)
É que neste caso concreto, o corrector ortográfico não te pode ajudar: as duas palavras constam do dicionário!...

dezembro 10, 2006 10:34 da manhã  

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